Delegado youtuber famoso nas redes sociais, ele teve a expulsão proposta ao menos duas vezes pela cúpula da corporação por supostamente inventar a prisão de um chefão do PCC e xingar superiores de “ratos”.

Conforme deputados governistas e integrantes da gestão estadual ouvidos pela Folha de S.Paulo, o delegado deve sofrer, no máximo, uma suspensão temporária. Segundo eles, isso ocorrerá graças a uma articulação política envolvendo o deputado Delegado Olim (PP), o ex-secretário da Segurança Guilherme Derrite (PP) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), todos aliados políticos.

Em nota, a gestão Tarcísio nega ter havido arranjo político e sustenta que as decisões foram técnicas.
“Não houve qualquer interferência política ou tratamento diferenciado no caso citado. Os Processos Administrativos Disciplinares (PADs) foram regularmente instaurados, conduzidos e concluídos nos termos da lei, com respeito ao contraditório e à ampla defesa”, diz a nota, sem informar qual foi a decisão final do governo (leia mais abaixo).

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Atualmente, Da Cunha está afastado das atividades policiais para cumprir seu mandato em Brasília. Caso não seja reeleito, poderá, em tese, voltar às funções de delegado. Nas redes sociais, o parlamentar passou a tratar os processos demissionários como fake news.

Procurado pela Folha de S.Paulo, o delegado Da Cunha afirmou, em nota, que “não se manifestará sobre especulações relativas a processos administrativos arquivados”.

A primeira proposta de demissão foi aprovada pelo Conselho da Polícia Civil em maio de 2022. Tal órgão é formado pelos principais delegados do estado, diretores de departamentos, além do delegado-geral e do adjunto. Juntos eles avaliam o resultado das investigações da Corregedoria e decidem sobre eventuais punições. No caso de delegados, o processo passa por cinco etapas: Corregedoria, Conselho, Consultoria Jurídica, secretário da Segurança e, por fim, o governador.

O secretário e o governador podem não concordar com a proposta de demissão e não acatá-la, mas somente o último, o chefe do Executivo estadual, pode aplicar a sanção máxima.

A primeira demissão foi recomendada pela cúpula da Polícia Civil após investigação da Corregedoria que concluiu que o delegado inventou a prisão de um chefão do PCC, Jagunço do Savoy, com o objetivo de gerar conteúdo para as redes sociais privadas. O vídeo dessa prisão rendeu 30 milhões de visualizações no YouTube e deu um grande impulso para o canal chegar a 3,7 milhões de inscritos.

Policiais ouvidos pela Corregedoria afirmaram que tudo não passou de fraude. “Conforme se depreende dos documentos ora juntados e relatórios policiais demonstrando que se trata de uma mentira que expõe toda a instituição da Polícia Civil e tumultua os trabalhos da instituição policial”, disse, em depoimento, o então delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, morto em 2025 em emboscada de criminosos do PCC.

Em agosto de 2022, foi feita a segunda recomendação de demissão, quando Da Cunha, em entrevista a um podcast, chamou chefes delegados de “ratos” e “raposas”. Posteriormente, realizou uma série de ataques a Ruy Ferraz Fontes e ao governador João Doria (então no PSDB) nas redes sociais. Por tal comportamento, foi afastado das ruas e teve sua arma recolhida.

Foi nessa época, em agosto de 2022, que surgiu o primeiro indício de ação política em favor do delegado. Em entrevista ao canal do YouTube “Diário de Polícia”, o deputado Delegado Olim disse ter pedido ao então governador Rodrigo Garcia (então no PSDB e hoje no Republicanos, partido de Tarcísio) para segurar a demissão. “Ele só não foi mandado embora [ainda] porque eu pedi para o governador segurar. Ele [Cunha] vai ganhar para deputado, acho que vai ser um bom deputado, e vai pagar tudo que ele já fez, e viu que não levou a lugar nenhum”, disse.

Integrantes da gestão Rodrigo Garcia afirmaram à Folha de S.Paulo que isso de fato ocorreu. O processo demissionário chegou ao Palácio dos Bandeirantes, mas o então governador decidiu deixar o assunto para seu sucessor resolvê-lo. Ele nega ter participado de qualquer ingerência em decisões da polícia.
Procurado na semana passada, Olim não quis dar declarações sobre o assunto.

A Folha de S.Paulo apurou que, em ambos os processos, a gestão estadual não acatou a proposta de demissão. No primeiro caso, sobre a falsa prisão do chefão do PCC, a pena foi reduzida para suspensão. Já no segundo caso, o policial teria sido absolvido. Como os casos envolvendo punições de delegados são sigilosos, não é possível afirmar quando os processos foram concluídos pela gestão Tarcísio.

O governo paulista não confirma nem nega as decisões em favor de Da Cunha. Diz somente que demissões são publicadas no “Diário Oficial” e sanções menos graves são mantidas em sigilo. Também não informa de quem partiu a decisão de livrar o policial, se foi do ex-secretário Guilherme Derrite ou do governador. Pessoas ligadas ao governo afirmam que ao menos uma delas foi do próprio Tarcísio.

No início de março deste ano, a Folha de S.Paulo solicitou à gestão Tarcísio a situação dos processos de demissão de Da Cunha. O governo não informou. “Todos os processos são analisados de acordo com a Lei Orgânica da Instituição, que determina caráter sigiloso às sanções disciplinares impostas a delegados de polícia, com exceção para as sanções demissórias. A decisão final é divulgada no Diário Oficial.”

Membros do próprio governo afirmaram à reportagem que a gestão Tarcísio já tinha decidido em prol do delegado Da Cunha, mas não admitiria isso publicamente. Isso porque, além desses processos, Da Cunha também é alvo de acusações de violência doméstica por parte de ex-companheiras. A última delas foi em 2023, feita pela ex-companheira Betina Grusiecki e pela qual o policial responde a processo.

Sobre violência doméstica, Da Cunha, por meio de sua assessoria, disse que “o processo continua sob segredo de Justiça. Portanto, até a resolução do caso, ele não poderá se manifestar”.

A gestão Tarcísio, ainda segundo essas pessoas ouvidas, também não confirmaria ter livrado o delegado porque muitos policiais civis, incluindo delegados, foram demitidos por situações muito menos graves.
Em nota, o governo estadual nega ter favorecido Da Cunha e diz que “observa rigorosamente o princípio da isonomia”. “Casos similares são analisados sob os mesmos parâmetros legais, independentemente de posição, exposição pública ou eventual atuação política dos envolvidos.”

O ex-secretário Derrite nega participação em processo para salvar Da Cunha. Diz que, na verdade, a decisão partiu da gestão anterior. “O deputado federal Guilherme Derrite esclarece que a decisão foi tomada na gestão anterior, do então secretário da Segurança Pública General Campos. A alegação da reportagem não procede, pois não houve tal aconselhamento nem ingerência de Derrite nesse assunto.”

Em julho de 2023 e abril de 2024, porém, a própria secretaria, na época comandada por Derrite, afirmou em nota à reportagem que os processos contra o policial ainda estavam em curso. “Os procedimentos instaurados pela Corregedoria da Polícia Civil contra o referido delegado estão em curso e são analisados de acordo com a Lei Orgânica da Polícia Civil. Os resultados serão publicados no Diário Oficial do Estado.”

A reportagem não conseguiu falar com o ex-secretário João Camilo Pires de Campos. Pessoas ligadas a ele afirmaram à Folha de S.Paulo que o general, ao contrário do que diz Derrite, manteve a recomendação de demissão do delegado e encaminhou-a ao Palácio dos Bandeirantes.