A mãe da bebê Sophia Garcez Baltazar Santos, de apenas quatro meses, que morreu no último dia 25, falou pela primeira vez sobre a morte da filha. A estudante Alicia Garcez Baltazar, de 20 anos, desabafou sobre a perda de Sophia e quer o seu ex-companheiro João Pedro Santos Alves, que foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como principal suspeito do crime, seja preso.

Quase um mês após a morte de Sophia, a dor da perda divide espaço com a revolta. O suspeito teve sua prisão decretada, mas segue foragido, gerando preocupação na estudante, que teme pela segurança de sua família.

“Demorei para voltar para a faculdade porque ele sabe onde eu estudo, onde eu moro, onde meus pais moram e trabalham. Postaram a foto dele, ele está foragido, não sei o que ele pode fazer”, disse Alicia em entrevista, indignada com o fato de a audiência de custódia inicial não ter mantido o ex-companheiro preso preventivamente.

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“A audiência de custódia foi um absurdo, ela não precisava ter morrido para ele ficar lá. Assim ele não teria fugido. Ele pode ferir a minha família, qualquer pessoa. Se ele é capaz de matar a própria filha, ele pode fazer qualquer coisa”, afirmou.

Para Alicia, o quarto de Sophia permanece intocado, repleto de lembranças dolorosas de um futuro que foi roubado. “Minha filha não sente frio, ela não me escuta, ela não vai me chamar de mãe, porque a minha filha está morta”, lamentou.

Dia do crime

Segundo Alicia, João Pedro era um bom pai no começo, porém ela começou a notar alguns hematomas em Sophia com o decorrer do tempo. A mãe lembra que a criança era apegada com o pai mas, depois de um tempo, passou a ficar menos receptiva a ele.

“Quando eu via hematomas era quando eu ia trocá-la, dar um banho nela. Eu perguntava o que tinha acontecido, pois ela estava roxa. Ele vinha dizer que estava brincando com ela, pedia desculpas. Ele sempre parecia arrependido, como se tivesse sido sem querer. Eu levei nos médicos, nunca ninguém me pontuou isso (de que poderia haver algum sinal de agressão). É difícil construir uma família e parar para pensar que o pai da minha filha trata ela mal”, contou.

No dia 23 de agosto, Alicia relata que foi falar com o seu avô para saber notícias da sua avó, que estava internada em estado grave, quando tudo aconteceu. “Fui conversar com o meu avô. Quando deu 15 minutos, ele apareceu com ela no colo, falando que ela caiu e dizendo para que a gente fosse ao hospital. A cabeça dela estava inchada e ela gemia de dor. Perguntei o que tinha acontecido. Ele disse que tinha ido dar mamadeira, mas ela não quis. Aí ele falou que tinha deixado ela no carrinho, que estava na frente do tatame do quarto, mas que ela havia caído para um lado e o carrinho para o outro. Demos essa versão quando chegamos na triagem do hospital. Fomos fazer a tomografia, deu traumatismo craniano, e hemorragia intracraniana, precisamos espera que a vaga na UTI fosse liberada. Vi que ela estava com dificuldade para respirar, falei para a enfermeira. Ela abria o olho só olhava para cima, então a Sophia começou a convulsionar. Eu estava sozinha na emergência, eu sai da sala, fui lá para frente, pois não consegui ficar. Ela convulsionou três vezes seguidas. O médico falou que ia chamar a polícia porque ela corria risco de morte. Ela tinha marca no peito, bem acima do mamilo mesmo. Não sei se eu fui olhar para trocar, insisti com ele, perguntei o que era isso, foi a única vez que ele fez esse ‘não sei, deve ter machucado'”, relembrou.

Enquanto a filha lutava pela vida na UTI da Santa Casa, Alicia conta que estranhou o comportamento de João Pedro. No entanto, quando a Polícia Civil pediu para que ela mostrasse o quarto onde Sophia havia se machucado, que ela começou a perceber que algo mais grave poderia ter ocorrido.

“Quando subimos para a UTI, os médicos falaram: ‘vamos chamar vocês para entrarem bem rapidinho antes dos procedimentos’,. Quando liberaram para a gente entrar, falei vamos entrar. Ele falou que não. Achei que ele estava se sentindo culpado. Enquanto ficamos lá fora ele ficava vendo vídeo no Tiktok, rindo. Foi tudo rápido até, foi só isso mesmo, tinha alguma outra coisa? A polícia chegou e pediu para darmos uma declaração. A delegada perguntou, expliquei como era o meu relacionamento, expliquei como ele era como pai. Ela perguntou se eu tinha olhado o carrinho. Quando fomos até a minha casa, o carrinho estava normal. Ele disse que o carrinho teria engatado no tatame e tombado, mas passamos várias vezes o carrinho do jeito que ele falou e não acontecia nada. Nesse momento, a minha ficha começou a cair”, comentou.

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“Naquele momento eu não pensei em nada, fiquei em choque. Eu passei o carrinho umas 10, 15 vezes, em nenhum momento ele engatou. Quando cheguei na delegacia fiquei sabendo que ele mudou o depoimento. Ele disse que foi dar a mamadeira para ela, com ele em pé, colocou ela sentada no antebraço, sendo que ela nem sentava, e olhou para trás. Ele falou que a Sophia escapou e, na tentativa de tentar segurá-la, acabou empurrando ela no chão e que não falou nada com medo de eu brigar com ele. Pedi medida protetiva, falei que queria conversar com ele e tudo mais. Ele disse ‘sabe que eu te amo, eu jamais faria isso’. Eu disse que nunca mais ele ia ver a bebê”, destacou.

Despedida

Ela disse que os médicos já tinham alertado que a situação dela era crítica e que testes sobre morte encefálica seriam realizados após a retirada de alguns medicamentos.

Emocionada, Alicia falou sobre os últimos momentos de vida de sua filha. “Até então não tinha nada o que fazer, tiraram os sedativos para abrir protocolo de morte cerebral. Nesse meio tempo, ela começou a parar. Quando olhei para o monitor, o batimento estava normal, mas a saturação estava 28, com ela entubada, e perguntei para a enfermeira por que? Pedi para chamar o médico, ele disse que ela não estava respondendo mais. Eu lembro que falei: ‘quero sair, não quero ficar, não quero ver ela parar’. Depois eu fiquei lá com ela, conversando com ela, cantando a música que ela gostava do ‘Bonde do Tigrão’. Acabei ficando lá até ela parar. Eu ainda pedi para segurar ela no colo, uma última vez. A cabeça dela tinha vários buracos, ficou bizarro. Ali caiu a minha ficha que ele era um monstro, não tinha como ter sido acidente”.

Pedido de Justiça

Disposta a transformar sua dor em uma bandeira por justiça, Alicia exige que a imagem do foragido seja amplamente divulgada. “Se ele não quisesse, era só pegar e ir embora. Se ele não aguentava mais, achava que ia matar ela, era só ir embora”, afirmou a mãe.

Ela espera que João Pedro seja localizado e preso, mas ela quer que ele seja julgado pela morte. “Ele vai pagar na Justiça, mas eu acho que tudo que ele for pagar ainda não vai ser o suficiente”, concluiu.

A Reportagem não conseguiu contato com a defesa de João Pedro até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.

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